Ciclo 2011-2013: Relatório do Grande Júri
Ciclo 2011-2013: Relatório do Grande Júri
As comunidades muçulmanas contemporâneas vivem em contextos definidos por movimentos em grande escala e pela negociação constante de noções como identidade e pátria. Estes processos levam a uma compreensão progressiva do próprio e do outro, gerando diferentes combinações de volatilidade e criatividade. O Júri de 2013 comprometeu-se em identificar, reconhecer e premiar iniciativas com potencial para ajudar comunidades a lidar com desafios em múltiplas interseções, quer em termos de tempo ou espaço histórico, quer no que respeita à articulação entre património e modernidade. Os temas dominantes que definem este ciclo do Prémio são: reabilitação, enquanto revitalização e adaptação da tradição; integração, como modo de unificar ambientes fragmentados, o rural e o urbano; a procura do design de excelência em condições de escassez de recursos; e abraçar a dignidade solene da morte como forma de afirmar a vida e os vivos.
A reabilitação leva com frequência à “museificação” de espaços e artefactos, como acontece a tantas relíquias de um passado desaparecido. O pressuposto é que a tradição está clinicamente separada do presente. O resultado é, portanto, fossilizar o passado e desligá-lo do presente. Quando o sujeito é a história imediata dos povos – neste caso comunidades muçulmanas cujo passado imediato está enraizado em sociedades colonizadas, onde o projeto de modernidade foi introduzido como parte de uma “missão de civilização” estrangeira –, o estrago é ainda maior. O Júri procurou identificar e reconhecer iniciativas que destacassem um património vivo e flexível, afirmando o seu potencial enquanto recurso capaz de enriquecer o presente com um significado. O objetivo é tornar possível que um povo tome posse da sua história enquanto tradição viva.
O restauro nunca é um simples regresso ao original. Entre os projetos galardoados pelo Júri, existem alguns que destacam o potencial do restauro para integrar um presente fragmentado. Se o desafio é, por um lado, deixar a comunidade tomar posse do seu passado, por outro é unificar uma paisagem fragmentada pela confluência de múltiplos desenvolvimentos, oficiais e não-oficiais. As comunidades muçulmanas vivem em vários ambientes, urbanos e rurais. No que toca a populações aldeãs, o desafio é a forma de validação do ambiente rural. Aqui, restauro é mais do que apenas desenho; requer um processo participativo e uma abordagem holística maior do que a soma de partes.
A arquitetura é a quintessência da atividade urbana, identifica-se com o urbanismo. Apesar de serem densas, frequentemente as áreas urbanas provocam solidão, a sensação de se estar desconectado num mundo desintegrado. Num contexto em que as grandes pontes tendem a ser elementos destrutivos na estrutura das cidades e na paisagem, uma ponte que toca levemente o solo e cria espaços para atividade pedestre destaca-se. A ponte liga a sociedade, tanto metaforicamente como fisicamente, e contribui para uma integração tripla: do projeto público, da infraestrutura e da paisagem.
Será possível, para um projeto com um orçamento reduzido, combinar funcionalidade e design, utilidade e beleza, custo acessível e excelência? Pode a arquitetura, historicamente uma atividade humana altamente destrutiva para o ambiente, assumir uma postura que concilie discrição e grande inovação, que permita gastos energéticos reduzidos juntamente com a reciclagem de recursos? Entre os projetos que o Júri apreciou, destaca-se uma construção que transforma contentores desmantelados, um desperdício resultante da cultura de consumo, num material de construção esteticamente agradável e de baixo custo, capaz de ser usado para proporcionar serviços de saúde muito necessários com um alto nível de atendimento aos pacientes.
Movimentos rápidos alteraram a composição étnica e religiosa das comunidades. Questões em torno de definições, sobre o que é casa e exterior, sobre o próprio e o outro, têm o potencial de desencadear divisões tendenciosas. Quando a intervenção arquitetónica converte esta volatilidade numa ocasião de reflexão sóbria e focalizada, sobre a vida e não sobre a morte, tem o potencial de dar aos vivos uma segunda hipótese. O Júri honra a graça e a beleza de cada uma destas intervenções, assim como o seu caráter inclusivo e previdente.
O Júri seguiu um processo de seleção em duas etapas. A primeira, que conduziu a uma seleção de 20 projetos, concentrou-se na identificação de temas e desafios que os profissionais da construção encaram hoje em dia. A segunda etapa fundamentou-se numa consideração tripartida – a abordagem participativa holística, a qualidade do projeto, e o seu impacto socioeconómico-ambiental – que levou à seleção final de cinco projetos merecedores do Prémio Aga Khan para a Arquitetura:
- Centro de Cirurgia Cardíaca Salam, Cartum, Sudão
- Revitalização do centro Histórico de Birzeit, Palestina
- Reabilitação do Bazar de Tabriz, Irão
- Infraestruturas de Rabat-Salé, Marrocos
- Cemitério Islâmico, Altach, Áustria
Genebra, 06 de junho de 2013
Mahmood Mamdani (Presidente), David Adjaye, Howayda al-Harithy, Michel Desvigne, Kamil Merican, Toshiko Mori, Shahzia Sikander, Murat Tabanlıoğlu, Wang Shu