A AKDN na COP27: Porque participámos e o que conseguimos?
Afeganistão · · 4 Min
AKAH
Por Onno Rühl, Diretor Geral da Agência Aga Khan para o Habitat
A adaptação não é apenas necessária; é bastante possível. A nossa rede tem uma longa história de capacitação das comunidades mais remotas para se adaptarem aos seus contextos ambientais adversos.
Pela primeira vez, a AKDN participou na COP27 como Observador oficialmente credenciado, associando-se a mais de meia dúzia de eventos – um nível de envolvimento muito superior quando comparado com o de anos anteriores. Porque participámos e o que conseguimos?
Os destaques da COP27 foram as negociações para definir se a meta de 1,5 graus seria ainda exequível e se os países ricos e os maiores emissores iriam disponibilizar fundos para apoiar a adaptação climática nos países em desenvolvimento e cobrir as perdas e danos causados por desastres climáticos. Com estes dois objetivos em mente, a AKDN chegou à COP27 com duas mensagens claras:
- Não podemos desistir da meta de 1,5 graus. Os danos atuais nas regiões onde trabalhamos são já devastadores. As inundações no Paquistão foram apenas um exemplo, há muitos outros nas áreas geográficas em que estamos presentes. À medida que o termómetro for subindo, os danos irão aumentando exponencialmente. É por isso que a nossa rede tem o compromisso de atingir a Neutralidade Carbónica até 2030 em todas as nossas atividades, não obstante trabalharmos em algumas das regiões mais exigentes do mundo.
- A adaptação não é apenas necessária; é bastante possível. A nossa rede tem uma longa história de capacitação das comunidades mais remotas para se adaptarem aos seus contextos ambientais adversos. Embora isto se vá tornando cada vez mais difícil a cada ano, nós subimos o nosso nível de ambição: já não queremos ajudar as comunidades a serem suficientemente resilientes para apenas sobreviverem, trabalhamos para ajudá-las a prosperar.
Posto de vigilância meteorológica gerido pela comunidade na aldeia de Ners, no distrito de Wakhan, em Badakhshan.
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Mas a adaptação por si só não será suficiente. O nosso adversário, as alterações climáticas, está a correr cada vez mais depressa. Também temos de fazê-lo abrandar se queremos ganhar a corrida.
Enquanto ex-corredor, eu penso nesta questão deste modo: se formos capazes de mostrar que podemos superar o ritmo das alterações climáticas, encontrar melhores formas das comunidades se adaptarem, mesmo nas regiões mais complicadas, e partilharmos este conhecimento com quem quiser, estaremos a dar uma contribuição importante para a corrida global pela sobrevivência que a Humanidade está atualmente a enfrentar. Mas a adaptação por si só não será suficiente. O nosso adversário, as alterações climáticas, está a correr cada vez mais depressa. Também temos de fazê-lo abrandar se queremos ganhar a corrida.
Embora nenhuma organização sozinha consiga abrandar as alterações climáticas, a AKDN pode mostrar que a mitigação agressiva é possível, mesmo nas áreas mais remotas do mundo. Podemos inclusive mostrar que para atingir a Neutralidade Carbónica não é preciso deixar de prestar serviços de qualidade em saúde, educação, serviços de telemóvel, energia ou muitas outras coisas que queremos fazer. Pelo contrário, podemos mostrar que o facto de atingirmos a Neutralidade Carbónica irá na verdade melhorar os serviços, uma vez que iremos estabelecer parcerias com os países para diversificar as suas fontes de energia e encontrar novas e melhores formas de fazer negócio.
Durante a conferência, concentrámo-nos em mostrar e chamar a atenção para algumas questões práticas. A nossa equipa de saúde mostrou como estão a fazer um trabalho incrível para reduzir as emissões de todas as nossas unidades de saúde, continuando ao mesmo tempo a oferecer serviços de saúde de excelência. Esta é uma grande conquista, uma vez que o sector da saúde é responsável por uma grande quantidade de emissões difíceis de evitar porque não é possível pôr em causa a qualidade. Da mesma forma, a nossa equipa de educação defendeu a integração do clima nos sistemas educacionais, com o intuito de criar uma nova geração equipada com o conhecimento e as competências para lidar com a crise climática. E a minha própria equipa da Agência Aga Khan para o Habitat chamou a atenção para o dilema das comunidades de montanha na linha da frente das alterações climáticas e mostrou como estas comunidades podem desenvolver a sua resiliência apesar do rápido avanço das alterações climáticas.
Onno Rühl na COP27
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A maior ameaça à ação climática é que as pessoas possam achar que mesmo que essa ação seja necessária é muito difícil ou mesmo impossível de ser bem-sucedida... É tarde, mas não demasiado tarde para ganhar a corrida!
Depois de terminar a conferência, estou a refletir sobre o impacto da nossa participação. Mudámos mentalidades? Valeu a pena? Creio que sim, mas ainda não é suficiente. Em algumas das sessões, como a que abordou o nosso trabalho transformador de mitigação de avalanches nas altas montanhas do Afeganistão, Paquistão e Tajiquistão, cheguei a sentir que algumas pessoas na plateia tinham dificuldades em acreditar no potencial de eficácia da combinação da mobilização comunitária com a ciência de ponta ao nível da ação climática. “Vocês talvez consigam fazer isso, mas para nós seria muito difícil”, parecia ser o que estavam a pensar.
Assista a este breve vídeo sobre as atividades de previsão de avalanches e de desenvolvimento de resiliência da AKAH na Ásia Central
Por isso, acredito que devemos voltar no próximo ano e continuar a defender a nossa causa. Não podemos alcançar os nossos objetivos sozinhos. Agora que foi firmado um acordo para a criação de um fundo para as perdas e danos climáticos, os governos e outros parceiros irão procurar programas e projetos concretos para financiarem. Isto significa que as nossas ideias relativamente à ação climática têm de viajar por toda a parte, tal como no passado o modelo de desenvolvimento orientado para as comunidades da AKDN viajou pelo mundo. A maior ameaça à ação climática é que as pessoas possam achar que mesmo que essa ação seja necessária é muito difícil ou mesmo impossível de ser bem-sucedida. Se muitas pessoas pensarem que a humanidade irá falhar, a minha filha e muitas outras pessoas da sua geração não terão futuro.
É por isso que temos de continuar a trabalhar para correr mais rápido e mostrar que podemos fazer o nosso adversário abrandar. Ficaremos contentes em trabalhar com quem desejar o mesmo. É tarde, mas não demasiado tarde para ganhar a corrida!