Índia · 22 agosto 2023 · 6 Min
AKDN / Gary Otte
Desde os confinamentos durante a COVID-19 até ao ChatGPT, os últimos anos do sector da educação têm sido tumultuosos. Será a tecnologia uma solução ou uma ameaça? Conheça três professores da Índia, Quénia e Paquistão que têm vindo a explorar ferramentas digitais para satisfazer as necessidades em constante evolução dos seus alunos.
Um aluno do ensino pré-primário na Escola Aga Khan de Bohtuli, no Paquistão.
AKDN / Kamran Baig
Saima Mazhar, Coordenadora para o Desenvolvimento da Primeira Infância (DPI) dos Serviços Aga Khan para a Educação (AKES) do Paquistão, é responsável pela conceção do currículo, desenvolvimento de recursos, formação de professores e identificação das necessidades de formação em 150 escolas de três regiões do Paquistão.
“A COVID foi uma bênção, no sentido em que nos obrigou a explorar a tecnologia. As escolas ficaram fechadas durante semanas, e as restrições que se seguiram permitiam que apenas metade dos alunos pudessem ir às aulas de cada vez. A internet na altura não era de boa qualidade, por isso comprámos tempo de antena nas redes locais de TV por cabo, que transmitiram as aulas digitais para os alunos assistirem em casa.
“Ainda que nem todas as famílias tivessem portáteis ou smartphones, esta estratégia chegou a 75% a 85% dos alunos. Enquanto organização, levamos muito a sério o acesso ao ensino por parte de todas as crianças, pelo que todas aquelas que perderam aprendizagens tiveram aulas suplementares com os professores para reforçar os conceitos adquiridos.
“Ainda estamos a usar aulas digitais para o reforço das aprendizagens. Em cada escola de Chitral, por exemplo, existe um pequeno ecrã de LED onde os alunos aprendem conceitos usando as lições digitais e onde os professores também podem reforçar conceitos. Para as escolas sem internet, temos um banco de dados de aulas digitais para os professores mostrarem aos alunos, que inclui recursos integrados, como vídeos do YouTube. Pretendemos usá-los numa estratégia de sala de aulas invertida [na qual os alunos recebem os conteúdos de antemão e podem passar o tempo da aula em debates e atividades]. Também providenciamos aulas em pens USB aos pais de crianças mais novas.
“Algumas das nossas escolas ficam muito, muito longe e é-nos difícil enviar professores qualificados e com formação para locais tão distantes. Em certas áreas, existiam mais de 100 casas, mas por causa das alterações climáticas e de outras razões, as populações estão a migrar para outras regiões. Precisamos de arranjar soluções concretas para os poucos que ainda se mantêm e estamos a explorar a introdução de escolas digitais.”
Abhishek Kumar considera que os seus alunos se mostram mais interessados quando ele ensina com a ajuda de uma TV inteligente.
AKF
Abhishek Kumar é professor do ensino primário e preparatório na Escola Básica de Bakhari, no distrito de Muzaffarpur, em Bihar, na Índia. A AKF tem vindo a trabalhar com os professores através do programa Escolas2030, fornecendo tecnologia inteligente e formação para ajudar a melhorar o processo de ensino e os resultados de aprendizagem dos alunos.
Na altura em que estava a terminar o 12.º ano, Abhishek viu a tecnologia a evoluir rapidamente. Ele pôde usar o Google e o YouTube para pesquisar melhor certos temas – mas também encontrou uma aplicação para smartphone que dava as respostas dos trabalhos de casa. “Isso não é muito bom porque os trabalhos de casa devem ser resolvidos pelo próprio aluno para que assimile melhor a matéria!”, refere.
“Eu uso uma TV inteligente para visualizar conceitos e mostrar objetos em 3D, por exemplo, quando estou a ensinar o volume, área ou perímetro. Isto reduz o tempo necessário para a explicação dos conceitos. Também uso a TV para exibir exercícios que preparei nas línguas regionais, pois é difícil encontrar recursos online. A AKF também se comprometeu em criar recursos nas línguas regionais para a plataforma online, em colaboração com os nossos professores.
“Isto levou a um aumento da participação por parte dos alunos – anteriormente, alguns não conseguiam estabelecer um vínculo com os professores. Apenas 10% das famílias da minha escola têm capacidade de dar aos seus filhos um telemóvel ou um computador, porque esta é uma escola pública frequentada apenas por alunos marginalizados. Mas eles adoram tecnologia e estão sempre com vontade de ter aulas na sala de aulas inteligente.
“Até agora só temos a TV inteligente, mas a minha escola espera obter um quadro inteligente, no qual eu possa escrever e exibir recursos, e uma mesa inteligente para os alunos participarem em grupo.”
Serem Kipkemoi ensina os alunos da Academia Aga Khan de Mombaça acerca das tecnologias de informação e a dominar a sociedade digital.
AKA
Serem Kipkemoi, Vice-Presidente de Sistemas Académicos e de Dados da Academia Aga Khan de Mombaça, ensina tecnologias de informação aos alunos dos anos mais avançados.
“Quando eu estava a estudar na universidade, 500 alunos tinham de partilhar cerca de 10 computadores. E agora toda a gente leva o seu portátil para a sala de aulas. No Programa de Diploma, ensino acerca da sociedade digital: como usamos a tecnologia de forma adequada, como podemos usá-la para resolver problemas e quais são as questões éticas?
“A Academia sempre deu destaque à formação dos professores com vista a usarem tecnologias como projetores e PowerPoint. Mas a COVID mudou as coisas. Os professores foram forçados a aprender rapidamente a usar a tecnologia de forma eficaz para o ensino a distância. E quando voltámos para a sala de aulas, continuámos a usar algumas dessas tecnologias.
“O Google Classroom permite-nos indicar diretamente aos alunos os pontos em que precisam de trabalhar. E do meu lado consigo ver os alunos a trabalharem com base nas minhas sugestões. O Nearpod foi uma ferramenta poderosa para o ensino a distância porque permite-nos conversar com os alunos, ver as caras deles enquanto trabalham, mas também ver o seu trabalho. Ainda o uso nas aulas. E o AssessPrep é uma plataforma de exames online que verifica se os alunos estão concentrados. Ela informa se os alunos estiverem a olhar para outro lado durante o exame.
“Também usamos sistemas como o ManageBac. Os professores publicam as suas aulas para os pais verem. Os pais são capazes de monitorizar a assiduidade. Os alunos podem ver os seus trabalhos e relatórios, e os professores podem dar feedback.
“Alguns alunos têm capacidade para comprar tecnologia para ter em casa. Mas também apoiamos o grupo de alunos do Programa de Identificação de Talentos que vêm de contextos muito pobres e marginalizados. Quando somos notificados, concedemos-lhes portáteis e apoiamo-los com um programa de mentoria em tecnologia. Ao fim de um ou dois anos, eles estão preparados para usar a tecnologia e completar as suas tarefas online.”
Serem está tranquilo em relação ao uso do ChatGPT por parte dos seus alunos no apoio à realização dos seus trabalhos. “Ultimamente, percebemos que é possível que alguns alunos tenham feito os seus trabalhos com a ajuda do ChatGPT, mas a maioria utiliza-o para validar ou melhorar o seu texto, e os professores usam-no para refinar os seus comentários. A IB disse-nos que se os alunos usarem o ChatGPT devem creditá-lo e fazer-lhe referência. Eu acho que se for bem utilizado, pode trazer benefícios.
“Já estamos a ver, como professores, uma certa transição. Nós éramos a fonte de conhecimento, mas agora temos de nos associar. Esse conhecimento virá do aluno, virá da tecnologia. A sala de aulas não terá limites. Temos de incentivar o aluno a usar esse conhecimento para resolver os nossos problemas comuns.
“No outro dia, estava a ler que o Elon Musk lançou a Starlink, a internet via satélite. Somos uns privilegiados na Academia, mas os alunos podem não conseguir aceder à internet. Acho que isto terá um impacto positivo em muitas regiões de África.
“Temos usado a internet para ter sucesso ao nível das transações financeiras no M-PESA. Acho que esse sucesso também se deve traduzir em educação. Podemos usar a tecnologia para garantir que a aprendizagem se concretiza e que podemos competir com o resto do mundo. Para mim, isso é importante."