Fundação Aga Khan
Paquistão · 17 fevereiro 2023 · 8 Min
AKDN / Wajiha Masud
O Paquistão é o quinto país mais populoso do mundo, mas contribui com menos de 1% das emissões globais de CO2. Não obstante, é um dos países mais afetados pelas alterações climáticas. As cheias devastadoras deste último ano que afetaram 33 milhões de pessoas são apenas o exemplo mais recente e visível. Existem inúmeros outros desastres climáticos que alteram e continuam a alterar profundamente as vidas e os meios de subsistência de milhões de pessoas. É absurdo que os menos responsáveis pelas alterações climáticas sejam os que mais sofrem nas linhas da frente. O recente anúncio na COP27 de que os países mais ricos irão ajudar a financiar as perdas e os danos causados nos países mais pobres é bem-vindo, mas os fundos ainda não estão disponíveis e as necessidades atuais do Paquistão – como de outros lugares – são urgentes.
Como parte do trabalho constante da Fundação Aga Khan (AKF) e da Agência Aga Khan para o Habitat (AKAH) de apoio ao desenvolvimento da resiliência às alterações climáticas no Paquistão, ao longo dos últimos dois anos temos vindo a estabelecer parcerias e a trabalhar com comunidades remotas no norte do país, através de um programa financiado pela União Europeia, para ajudá-las a enfrentar situações de desastre e a reforçar a capacidade de resposta a emergências das comunidades locais. No cerne do programa está o papel essencial das mulheres – que representam quase metade dos intervenientes no programa – e das pessoas com necessidades especiais na resposta a estes desafios.
Gilguite-Baltistão, uma região montanhosa, pouco povoada e com propensão a choques sísmicos, não tem os recursos necessários para mitigar e adaptar-se ao crescente número de desastres relacionados com o clima. Esta vulnerabilidade é agravada pelo acesso limitado a equipamentos médicos, materiais de emergência, formação em primeiros socorros e infraestruturas de água e saneamento.
Neste ensaio fotográfico, fazemos uma viagem por esta região montanhosa para conhecer algumas das áreas em que a AKF e a AKAH estão a trabalhar, os desafios que suscitam e o modo como estamos a fortalecer de forma colaborativa as valências de resposta a emergência e preparação para desastres.
Gilguite-Baltistão, uma região montanhosa, pouco povoada e com propensão a choques sísmicos, não tem os recursos necessários para mitigar e adaptar-se ao crescente número de desastres relacionados com o clima.
AKDN / Christopher Wilton-Steer
Skardu, Gilguite-Baltistão
A Agência Aga Khan para o Habitat (AKAH), com sede em Skardu, tem sido essencial na avaliação das comunidades em situação de maior risco em Gilguite-Baltistão e na construção de vínculos e confiança que permitam relações de trabalho produtivas. Através da nossa abordagem levada a cabo a nível local, temos conseguido ouvir as necessidades das comunidades e, de seguida, projetar programas que respondam a essas necessidades, beneficiando quase 75 000 pessoas através da formação em gestão de desastres, equipamentos de saúde, material de resposta a emergências e muito mais.
Abaixo pode ver algumas das paisagens em Gilguite-Baltistão que podem dificultar o acesso às comunidades remotas.
Alchori, Distrito de Shigar
A cerca de 48 km a norte de Skardu fica a aldeia de Alchori, no distrito de Shigar. Shigar é conhecido por ser a “porta de entrada” para as montanhas do Caracórum. O rio Indo, que começa na China e desagua no Oceano Índico, atravessa o distrito.
Em Alchori, mais de 30 membros da comunidade compõem atualmente uma Equipa Comunitária de Resposta a Emergências (CERT), formada através deste programa para atuarem como socorristas em situações de desastre e emergências. Como parte da sua formação, as CERT aprendem a identificar a gravidade de lesões, administrar primeiros socorros básicos, estabilizar e transportar pacientes e usar equipamentos médicos. Para incorporar as aprendizagens, são realizados simulacros em sessões de formação para garantir que as comunidades estão a trabalhar em conjunto com vista a uma atuação mais rápida e aos melhores resultados possíveis.
Voluntários de Equipas Comunitárias de Resposta a Emergências (CERT), em Alchori, Shigar, Gilguite-Baltistão.
AKDN / Wajiha Masud
Yunan Zahra, voluntária CERT, Alchori, Shigar
Yunan Zahra, voluntária CERT, Alchori, Shigar
AKDN / Wajiha Masud
Markunja, Distrito de Shigar
A cerca de 10 quilómetros a jusante de Alchori encontra-se Markunja. Nesta aldeia está instalado um centro de saúde rural com 20 camas na linha da frente da assistência às vítimas. Ao longo dos últimos dois meses, este centro médico já recebeu entre 15 e 20 casos de emergência e foi usado como uma unidade de primeira resposta, fazendo a triagem de casos.
Sempre que possível, este centro de saúde faz uma de três coisas – realiza tratamento imediato aos pacientes, admite pacientes na unidade para receberem cuidados continuados, ou encaminha casos mais graves para o hospital maior e mais bem equipado em Skardu – um percurso que pode demorar entre 50 minutos a três horas. Para apoiar esta unidade, a AKF e a AKAH identificaram lacunas ao nível das instalações de água, higiene e saneamento, assim como no conhecimento e experiência do pessoal na gestão de um grande número de vítimas.
Uma nova estação de lavagem de mãos no centro de saúde rural.
AKDN / Wajiha Masud
Além de fortalecer os cuidados de saúde em Markunja, a AKF tem trabalhado com as comunidades para desenvolver equipas CERT e Comités de Gestão do Risco de Desastres (VDRMC) em cada aldeia. Os VDRMC mapeiam os perigos e riscos nas aldeias e identificam as áreas mais seguras que podem ser usadas para evacuar as populações em situações de emergências e desastres naturais.
Estes comités são compostos por membros importantes das comunidades que analisam as vulnerabilidades de cada comunidade, listam os desastres existentes e abordam as lacunas e as necessidades em matéria de redução do risco de desastres. Os membros têm anos de experiência no voluntariado ativo nas suas comunidades e representam diferentes sectores da sociedade civil.
Wazir Fida Ali, Diretor do VDRMC de Markunja, Shigar.
AKDN / Wajiha Masud
Wazir Fida Ali, Diretor do VDRMC de Markunja, diz: “Markunja está em cima de uma falha sísmica, pelo que existe uma maior probabilidade de haver terramotos na nossa aldeia. Através da nossa formação, aprendemos o que fazer em caso de sismo e a melhor forma de nos protegermos e àqueles que nos rodeiam. Também temos muita neve e avalanches… e agora sabemos como liderar a nossa resposta a situações de desastre. Um aspeto importante deste projeto é o envolvimento das mulheres. Há um forte sentido de voluntariado na nossa comunidade, todos sentem que é seu dever participar.”
Shamim, voluntária CERT, Markunja, Shigar.
AKDN / Wajiha Masud
Shamim faz parte de uma equipa comunitária de resposta a emergências e é voluntária, para além de gerir o seu negócio, uma casa de chá, e a vida familiar com três filhos pequenos. Shamim afirma orgulhosamente: “Sou voluntária CERT, não tenho medo de nada”.
Imran Khan, um membro do VDRMC de Markunja, Shigar.
AKDN / Wajiha Masud
Imran Khan, membro do VDRMC de Markunja, Shigar.
Mehdiabad, Kharmang
AKDN / Christopher Wilton-Steer
Mehdiabad, Kharmang
Mehdiabad fica a quase 60 km de distância de Markunja – cerca de uma hora e meia de carro para Sul, no distrito de Kharmang. Kharmang é conhecida pelos seus exuberantes campos agrícolas e alberga uma série de pequenas aldeias.
Aqui, o programa apoia um centro de saúde rural com 10 camas que presta serviços de cuidados primários a uma grande comunidade. O centro lida com todos os casos de emergência antes de encaminhar os pacientes para cuidados secundários – uma viagem que demora uma hora de carro. Ao apoiar a unidade com o fornecimento de novos equipamentos médicos e a formação socorristas médicos no controlo de incidentes e emergências, o sistema de saúde torna-se mais capaz de servir a comunidade após a ocorrência de desastres.
Uma mãe e o seu filho pequeno aguardam para usar as instalações do centro de saúde em Mehdiabad, Kharmang.
AKDN / Wajiha Masud
Fiza, uma assistente de saúde feminina no centro em Mehdiabad, diz: “Através deste projeto, recebemos muita formação e equipamentos no nosso hospital, incluindo cadeiras de rodas, macas, camas, equipamentos de laboratório e cânulas. Isto tem facilitado o nosso trabalho; podemos trabalhar de forma rápida e eficiente. Anteriormente, estávamos dependentes daquilo que tínhamos disponível. Eu criei um tubo de sucção a partir de um cateter e uma seringa para ajudar os recém-nascidos após o nascimento – mas por vezes estávamos a comprometer a qualidade. O novo equipamento é uma grande ajuda.”
Sadaf Fatima, médica do centro de saúde em Mehdiabad, Kharmang.
AKDN / Wajiha Masud
Sadaf Fátima, médica do centro de saúde em Medibabad, partilhou: “Conseguimos lidar com emergências muito melhor do que antes. Eu formei-me recentemente e voltei para esta área – eu sou daqui. Quero ajudar as pessoas e é possível ver que aqui há muitas necessidades… os kits médicos e as formações em primeiros socorros têm sido bastante úteis para a nossa equipa e para o nosso trabalho.”
Pari, Distrito de Kharmang
Pari é uma aldeia em Kharmang – uma das aldeias afetadas recentemente pelas cheias no Paquistão em 2022. Foi a primeira vez que esta aldeia colocou em prática a formação recebida ao nível das CERT num desastre de grande escala.
Em colaboração com o governo local e os voluntários no terreno, as equipas CERT evacuaram as comunidades em segurança e transferiram-nas para um abrigo seguro num salão comunitário durante dois dias. Os voluntários ajudaram a alertar as comunidades vizinhas, indo porta a porta e informando-as da situação, evacuando as famílias das casas em maior risco e tomando providências para obter água potável, dado que a fonte de abastecimento próxima estava comprometida.
Novos equipamentos financiados pelo programa para apoiar o trabalho do centro.
AKDN / Wajiha Masud
Razia Batool, mãe de dois filhos, liderou os membros femininos voluntários da CERT. Quando as cheias atingiram a aldeia, ela ficou responsável pela alimentação das populações evacuadas – três refeições por dia para 250 pessoas não foi tarefa fácil.
Razia partilhou: “Foi uma situação difícil de lidar. Muitos homens estavam a sair para tentar salvar terras e casas, mas as mulheres, crianças e idosos estavam protegidos no salão comunitário. Algumas mulheres ficaram muito perturbadas depois de verem as cheias e temiam ficar desalojadas e perder tudo. Então, nós, as voluntárias da CERT, desempenhámos papéis diferentes, umas vezes estávamos a aconselhar pessoas no centro comunitário, outras vezes estávamos a providenciar comida a toda a gente. Tínhamos de ser versáteis. As nossas tarefas iam variando conforme a situação.”
Para além de envolver um maior número de mulheres na preparação contra desastres, o programa tem promovido e encorajado abertamente as pessoas com necessidades especiais no seio destas comunidades a fazerem parte dos processos de formação e planeamento da resposta a emergências. Quando sucedem situações de emergência, as equipas são capazes de responder de forma eficiente e sabem como retirar o melhor das competências de cada pessoa.
Voluntárias CERT em Pari, Kharmang, incluindo Razia Batool (ao centro).
AKDN / Mehar Aftab
Rubab Batool, uma voluntária CERT de 22 anos da aldeia de Pari, nasceu com um problema congénito nos membros e tem problemas de mobilidade nas pernas. Rubab estuda em casa e ajuda na vida familiar. Ela sente que o seu papel na CERT lhe dá uma maior confiança no geral e lhe permite interagir mais com a sua comunidade.
Rubab diz: “Eu adoro ajudar os outros. Ao ajudar os outros, sinto que tenho mais coragem. Embora não consiga caminhar rapidamente e tenha uma baixa estatura, adoro trabalhar como voluntária CERT. Estou qualificada para colocar ligaduras em pessoas com lesões... Com esta função, tenho mais hipóteses de servir os outros.”
Rubab Batool, uma voluntária CERT de Pari, Kharmang.
AKDN / Mehar Aftab
Rubab Batool, voluntária CERT em Pari, Kharmang
O impacto deste programa capta as dificuldades das pessoas e habitats que estão a suportar os impactos das alterações climáticas. O programa está a capacitar as pessoas para responderem a situações de desastre e emergências, preparando-as para lidar com as suas consequências. Ao orientarmos o processo de formação, ao fornecermos equipamentos e ao combinarmos isto com o conhecimento local e a apropriação dos mecanismos de resposta, estamos em conjunto a apoiar as comunidades para que estejam mais bem equipadas perante um número crescente de desastres e emergências climáticas.
“Reforçar a preparação das comunidades e dos sistemas de saúde para situações de catástrofe em áreas vulneráveis de Gilguite-Baltistão” é um programa de 18 meses com um orçamento de 750 000 € financiado pela União Europeia e implementado pela Fundação Aga Khan e pela Agência Aga Khan para o Habitat. Os pontos de vista e opiniões expressos não refletem necessariamente os da União Europeia. Pelo que nem a União Europeia nem a autoridade concessora podem ser responsabilizadas por elas.